APRESENTAÇÃO: Este curso propõe um estudo aprofundado dos conceitos de normalidade, patologia e saúde a partir de duas perspectivas fundamentais e complementares: a epistemologia histórica de George Canguilhem e a psicanálise do desenvolvimento em Donald W. Winnicott. O estudo de George Canguilhem é crucial para desconstruir a visão puramente estatística ou objetiva da doença. Ele nos ensina que a saúde não é a ausência de doença, nem um estado médio de equilíbrio biológico, mas sim uma normatividade vital — a capacidade ativa do organismo vivo de criar suas próprias normas de vida, adaptar-se a novas circunstâncias e avaliar-se em relação ao meio. A patologia, nesse sentido, é a redução dessa margem de manobra, uma vida que se sente “diminuída” ou “bloqueada”. A contribuição de Donald W. Winnicott, por sua vez, desloca o foco para a experiência subjetiva e o desenvolvimento emocional. Para Winnicott, a saúde emocional e psíquica reside na capacidade de ser espontâneo, criativo e de sentir-se “real” ou “vivo”. A patologia está ligada a falhas no ambiente de holding (sustentação) na infância, que levam ao desenvolvimento de um self falso, adaptado, mas internamente vazio. A articulação entre esses autores é fundamental no estudo da psicanálise. Enquanto Canguilhem oferece uma base filosófica e biológica para entender a agência do sujeito diante das normas, Winnicott fornece a lente psicanalítica para entender como essa capacidade de agência (ou normatividade) é construída ou comprometida na relação primordial com o outro. Juntos, eles permitem uma compreensão holística: a saúde é, simultaneamente, uma capacidade biológica de inovar diante da vida e uma experiência psíquica de integração e autenticidade.

Sergio Gomes: CURRICULO LATTES Psicanalista, Doutorado em Psicologia Clínica (PUC-Rio), Pós-Doutorado em Psicologia (IPUSP), Membro do Grupo Brasileiro de Pesquisa Sándor Ferenczi, Autor de “A gramática do silêncio em Winnicott” (Zagodoni, 2017), organizador do livro: “Winnicott: Seminários mineiros” (INM Editora, 2023), Organizador do livro: “A atualidade do Pensamento de D. W. Winnicott.” e co-organizador do livro “Nebulosa Marginal: teoria e clínica” (INM Editora, 2022). CONTATO
Programa de Curso:
Aula 1: O Normal e o Patológico em Canguilhem: A Vida como Atividade Normativa
- A Crítica ao Positivismo e ao Estatístico: Desconstrução da ideia de que o normal é uma média estatística e o patológico um desvio quantitativo.
- A Normatividade Vital: O organismo como ser que estabelece suas próprias normas de vida e avalia seu estado em relação ao meio.
- Saúde como Capacidade de Ser Normativo: A saúde não é um estado de equilíbrio, mas a capacidade de instituir novas normas diante das vicissitudes do meio; a doença como redução dessa margem de manobra.
Aula 2: O Saudável e a Experiência Subjetiva em Winnicott: O Processo de Amadurecimento
- A Mãe “Suficientemente Boa” e o Ambiente de Holding: A importância do ambiente facilitador (físico e emocional) para o desenvolvimento saudável do self verdadeiro.
- A Ilusão e o Desilusionamento Necessário: O papel da criatividade, do brincar e dos objetos transicionais no desenvolvimento da autonomia e da relação com a realidade externa.
- O Self Verdadeiro vs. Self Falso: A saúde como a possibilidade de se sentir real, vivo e espontâneo; a patologia como o predomínio de uma adaptação submissa ao ambiente (False Self).
Aula 3: Pontes Conceituais: Articulando Canguilhem e Winnicott
- A Experiência Vivida da Doença e do Desamparo: Comparando a agência do paciente na avaliação de sua saúde (Canguilhem) com a experiência de regressão e dependência na clínica winnicottiana.
- A Saúde como Processo Relacional, Não Essencial: Ambos os autores enfatizam o caráter relacional dos processos de saúde e doença, opondo-se a visões puramente internalistas ou deterministas.
- Criatividade, Adaptação e Normatividade: Explorando a conexão entre a capacidade de transcender normas (Canguilhem) e a criatividade como núcleo da saúde (Winnicott).
- Discussão Integrada: Debate sobre as potencialidades da normatividade vital de Canguilhem para a prática clínica winnicottiana e vice-versa.
Aula 4: Implicações para a Prática e a Saúde Coletiva
- Saúde Mental e as Normas Sociais: Reflexões sobre como os padrões sociais de normalidade podem gerar sofrimento mental e a relevância de abordagens que valorizem a singularidade individual.
- Encerramento e Perspectivas Futuras: Síntese dos diálogos e a contribuição combinada dos autores para repensar as políticas de saúde e a clínica contemporânea.
Cronograma das aulas:
Dia do curso: quarta-feira, das 19h as 21h, nos dias 14, 21, 28 de janeiro e 04 de fevereiro, 8h aula.
Carga Horária: 8 horas-aula
Público-alvo: Estudantes e profissionais das áreas de Psicologia, Medicina, Filosofia, Saúde Coletiva e interessados em epistemologia da saúde.
Bibliografia:
- Canguilhem, G. O Normal e o Patológico. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2011.
- Winnicott, D. W. O Ambiente e os Processos de Maturação. Porto Alegre: Artmed, 1983.
- Winnicott, D. W. “O Conceito de Indivíduo Saudável”. In: Tudo Começa em Casa. São Paulo: Martins Fontes, 2011.
- Ferraz, C. H. O valor da vida como fato: uma crítica neopragmática à epistemologia da vida de Georges Canguilhem. Rio de Janeiro: UERJ, IMS, 1994. (Série Estudos em saúde coletiva, n. 105).
- Estellita-Lins, Carlos Eduardo. Saúde e doença na psicanálise: sobre George Canguilhem e Donald W. Winnicott. In: Bezerra Jr., Benilton e Ortega, Francisco (Orgs.). Winnicott e seus interlocutores. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2007, p. 363-390.




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