A Invenção da Doença Mental
Objetivos do curso: A obra História da Loucura na Idade Clássica (1961), de Michel Foucault, não busca construir uma história do “progresso” das descobertas médicas sobre a mente humana. Sua questão fundamental é de ordem arqueológica e política: como a razão ocidental constituiu a sua própria identidade através do gesto de divisão, exclusão e silenciamento da loucura?
O curso propõe colocar em debate a tese foucaultiana segundo a qual a psiquiatria moderna e o positivismo médico não “libertaram” o louco de sua condição trágica. Pelo contrário, o nascimento do asilo e da nosografia converteu uma experiência de linguagem, de limite e de existência em uma “doença mental” confinada e sob permanente julgamento moral. Para a clínica psicanalítica, compreender essa genealogia é essencial para desnaturalizar os diagnósticos contemporâneos e resgatar a dimensão ético-política do sofrimento psíquico.
O curso buscará desnaturalizar as categorias nosográficas, compreendendo a historicidade e a arbitrariedade dos diagnósticos psiquiátricos rígidos; refinar a escuta das psicoses, apreendendo o delírio como uma tentativa de reorganização do mundo e produção de sentido de um sujeito; fortalecer a posição ética do analista, identificando os resquícios do “tratamento moral” e da vigilância disciplinar na própria postura do clínico; e oferecer estofo teórico para uma reflexão crítica sobre a sobremedicalização e o silenciamento sintomático promovido pelo modelo biomédico contemporâneo.
Formato: Aulas ao vivo via Zoom, e gravação disponível por até 30 dias após a última aula.
Conteúdo do curso:
• Encontro 01 – O Gesto de Divisão — Quando a Razão expulsou o Desatino?
A transição do ritual medieval de exclusão da lepra para a figuração renascentista do desatino; a Stultifera Navis (Nave dos Loucos) e a água como elemento purificador e espaço de passagem; a dupla dimensão do Renascimento, entre a experiência trágico-cósmica e a visão crítico-moral; e a cisão cartesiana no Cogito. Na articulação clínica, serão discutidos o que se perde quando a clínica escuta a loucura apenas como déficit ou ausência de razão e o resgate do desatino enquanto produção de sentido, linguagem e posição subjetiva singular.
• Encontro 02 – A Grande Internação — Como a Loucura se tornou um Problema Moral?
O marco institucional de 1656, com a fundação do Hôpital Général em Paris e o surgimento das Workhouses europeias; o confinamento indiscriminado; a ética do trabalho e o imperativo mercantilista como régua da razão e da normalidade; e a assimilação da insanidade ao erro moral, à “má vontade” e à culpa. Na articulação clínica, serão discutidas a herança moralista subjacente às noções de “desvio de conduta”, “inadaptação” e “anormalidade” e a forma como a exigência contemporânea de produtividade replica premissas da Grande Internação na escuta do sofrimento.
• Encontro 03 – A Estrutura do Delírio — Como o Desatino virou Erro de Linguagem?
A entrada da medicina clássica na loucura e a classificação nosológica inspirada na botânica; a cartografia das afecções; a arquitetura do delírio clássico, não como ausência de razão, mas como uma razão rigorosa baseada em premissas ilusórias; e a loucura como falha de linguagem, erro de julgamento e fascínio pela imagem. Na articulação clínica, serão abordados o delírio como trabalho de linguagem e tentativa de restauração de laço, em diálogo com Freud e Lacan na clínica das psicoses, e a especificidade da paranoia e da melancolia na ultrapassagem do diagnóstico meramente descritivo.
• Encontro 04 – A Invenção do Asilo e o Silêncio Médico — Onde está a Psicanálise?
A desmistificação do mito da “libertação dos loucos”, a partir de Philippe Pinel e William Tuke; a substituição das correntes físicas pelo Tratamento Moral; o “Círculo Antropológico” do século XIX e a circunscrição da loucura como “doença mental”; e a posição ambígua da Psicanálise segundo Foucault. Na articulação clínica, serão discutidos o lugar da psicanálise diante do modelo biomédico e do DSM e os desafios éticos da clínica atual diante da patologização da vida.
Qualquer dúvida, por favor, entrar em contato com a secretaria: secretaria@nebulosamarginal.com.br.
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